[…]
No centro do que parecia ser uma sala estava seu guardião, que olhava dela para mim alternadamente.
– Passei os últimos 23 anos protegendo sua maldita existência e você acolhe seu algoz em sua casa? Qual é o seu problema? Você não tem nenhum instinto de autopreservação? – Atirou para ela, tão logo conseguiu digerir a situação.
– Sou obrigada a concordar com essa constatação – murmurei.
– Calem a boca, os dois. – Disse, voltando-se para mim, que estava um pouco atrás dela. Passou alguns segundos encarando-me intensamente antes de virar para o guardião. – Algoz? Ela está mais para humorista. Acredito que poderia ganhar muito dinheiro inscrevendo-a num show.
O guardião bufou, depois a fitou com descrença perplexa.
– Garota, você tem sérios problemas.
Apoiei-me no passa-pratos e tirei uma das minhas adagas do porta facas. O guardião imediatamente engatilhou a arma e apontou-a para minha cabeça.
– Solte isso. Agora.
– Acha mesmo que consegue me acertar de novo? Teve sorte na primeira vez, e foi só porque me atingiu pelas costas. Não terá a mesma sorte novamente… Posso garantir. – Sustentei seu olhar com uma expressão assassina, que combinava bem com o tom de voz e inflexão que estava empregando. Sabia que estaria indefesa se ele se utilizasse da mesma habilidade da noite passada, mas podia garantir que não teria tempo para tal.
Só que nosso combate eminente foi interrompido por um guinchado agudo. De repente, uma criatura negra e peluda estava se esfregando em minhas pernas.
– E o que diabos é esse… Troço?
– Reagen, você voltou! – Phyllis falou, terna, e aquela estranha bola de pelos pulou em seus braços.
– Reagen? Isso lá é nome de gato?
Um gato. Então era aquilo que os mundanos chamavam de gato.
– Além de invadir minha casa, ainda fica questionando o nome que escolhi para o meu gato? E essa algoz pomposa – ela lançou uma de minhas lâminas curtas contra mim. Não tive tempo de evitar o ferimento, mas consegui me mover a ponto de fazer com que não se fincasse em minha perna, e sim na parede – se assusta com um mero gato?
Estava preparada e focada para um ataque do guardião, não dela. Fiquei surpresa e irritada com a investida.
– De novo, essa garota tem sérios problemas para avaliar consequências. Você acabou de dar mais uma arma para uma lançadora de adagas. Parabéns.
– Ela tem duas. Eu tenho dezenas.
– Realmente acha que pode contar com esse tipo de vantagem? Não fará diferença quando ela cortar sua mão, por exemplo.
– E qual sua utilidade nessa história que não impedi-la, super protetor?
Ele bufou.
– Odeio crianças.
– A criança aqui vai alimentar Reagen. Resolvam-se.
Amor é a justificativa dos inconsequentes.
Havia algo muito errado. Meu corpo estava entorpecido.
O fato de eu estar usando um corpo já era um erro grotesco. E o fato dele estar debilitado soava-me como a maior burrice que havia em minha lista. O que diabos eu tinha permitido que acontecesse?
Ah, sim.
Permiti que um maldito guardião idiota atirasse em mim.
O rei rolaria de rir se ficasse sabendo disso.
Respirei fundo, acessando os controles daquela carcaça incômoda com dificuldade. Se já era ruim quando estava em plenas condições de funcionamento, danificado era quase que completamente inútil. Fiquei surpresa ao não personificar a dor que devia ter sentindo, mas dei pouca atenção a isso. Trabalhei no ferimento, outra coisa que também foi fácil. Curá-lo foi incrivelmente rápido, e isso somado ao fato de que, com toda a certeza, aquela maciez não era correspondente ao chão de um beco, deixou bem claro que alguém havia acolhido e cuidado daquela interface.
Quando finalmente consegui me conectar totalmente ao corpo, meu raciocínio pareceu clarear. Era estranho que estivesse sendo tão difícil. Parecia haver algo criando interferência. E essa interferência me impedia de alcançar a plenitude dos meus poderes.
Talvez estivesse relacionado com aquela porcaria de guardião imbecil.
Respirei fundo e abri os olhos. Consegui levantar e focá-los a tempo de ver o vaso de cristal que ladeava a cama, no criado mudo, ir de encontro ao chão de uma maneira totalmente misteriosa, onde se espatifou em milhares de pedaços.
Comecei a resmungar impropérios em minha língua nativa, esforçando-me para desanuviar meus pensamentos.
– Você é esquizofrênica?
Recorrer às adagas foi um ato reflexo. Coloquei a mão sobre a lateral da coxa apenas para constatar que elas não estavam lá.
– Onde estão minhas coisas? – Rebati, usando o mesmo idioma que ela usava para falar comigo.
– Com “coisas” você se refere ao pequeno estoque de armas que trazia? – A ruiva perguntou, revelando a mão que mantivera escondida atrás de seu corpo, sacudindo uma sacola que emitiu um barulho metálico. – Você realmente acha que eu deixaria alguém armado na minha casa?
Avaliei minha situação. Aquela mulher havia mexido no meu corpo enquanto eu dormia, retirado minhas armas e feito sabe-se lá o que com minhas roupas.
Respirei fundo, esforçando-me para conter a irritação. Havia um zumbido em minha mente que me impedia de raciocinar com clareza. Tudo estava muito letárgico.
– Considerando que deve ter feito o que fez com boas intenções, serei educada. Pode fazer a gentileza de devolver meus pertences?
– Não até saber quem você é, porque realmente não fui capaz de encontrar seus documentos, e não foi por falta de persistência ou lugares para procurar.
Foquei meus esforços em calar o ódio que parecia fazer meu sangue ferver.
Então suspirei.
– Não tenho documentos. Não preciso deles.
– Realmente… Acolhi uma sem-teto esquizofrênica. Que ótimo.
– Só devolva as minhas coisas e será como se jamais tivéssemos tido o desprazer de nos conhecer. – Separei bem as palavras enquanto falava, porque ela parecia ser incapaz de me compreender.
– Poderia ter deixado você morrer naquele beco, sua vaca. E pode falar normalmente comigo, sou plenamente capaz de entendê-la.
– Não parece. E eu não morreria apenas com esse ferimento.
– Não gosto de esquizofrênicos sem-teto subestimando minha inteligência. E, se um ferimento apenas não é o suficiente, posso providenciar mais deles e jogá-la de novo no beco.
Passei a mão em meu cabelo.
– Algo está realmente muito errado hoje. Estou seriamente sendo ameaçada por uma mundana? – As sombras se esticaram ao meu redor, reagindo aos meus desejos assassinos. – Seus instintos de sobrevivência sofreram muitas avarias, não é mesmo?
– Meus alvos normalmente sofrem desse problema.
– Pois bem, Phyllis, parece que finalmente temos algo em comum.
– O que é você, afinal? Além, é claro, de esquizofrênica e sem-teto? Como sabe meu nome?
Coquei-me de pé, testando meu equilíbrio.
– Costumo saber o nome das pessoas que sou mandada capturar.
– Sequestradora? Nossa, quantas qualidades! Prazer, sou uma assassina profissional!
– Sou uma entidade das sombras, que veio até aqui fazer um favor para um rei idiota. Você quer proceder do jeito fácil ou do difícil?
– Em que esquina de Londres encontram-se suas sombras?
– Tente levantar os pés, assassina, e descubra onde estão minhas sombras.
Surpreendeu-me que ela fosse capaz de deslizar os pés pelo chão. Era poderosa, mesmo que não tivesse noção alguma do que estava fazendo.
Maldito rei.
– Que tipo de jogo é esse? Posso procurar telefones de hospitais psiquiátricos para você. Seria fácil, comparando com o trabalho que tive até agora.
Cruzei os braços sobre o peito.
– Bom que tenha esse tipo de contato. Vai precisar deles em breve, quando sua utilidade para o reino acabar.
Phyllis começou a rir e saiu do quarto.
– Reino? Seamus realmente precisa passar uma semana com você para aprender a ter senso de humor!
O grito que ela deu fez com que eu corresse ao seu encontro.
B.Claudino.
A moça do balcão não era simpática, mas eu também não era muito diferente dela. Pedi a ela o que eu queria, paguei e fui até a porta, que produzia um barulhinho irritante de sino ao ser aberta, por estar ligada a um. Ao colocar os pés para fora, olhei para a travessa de nome Change Alley. Meus olhos estavam detectando coisas que não existiam ou era mesmo uma mulher com parte do cabelo com coloração estranha jogada ali? Segurando meu sanduíche e olhando ao redor, caminhei até perto dela. Ela havia levado um tiro logo abaixo das costelas e não me parecia o tipo de pessoa comum para se ver caminhando pelas ruas de Londres. Talvez fosse por isso que ela estava ali ainda.
O que eu tenho a dizer? Malditos ataques de consciência pesada. Sim, é isso mesmo. Eu acabei ligando para Seamus para falar sobre a mulher que eu havia encontrado.
- Seamus? Preciso que venha até o início da Change Alley, logo em frente ao Il Mulino.
- Você compra seu sanduíche nessa loja? Por favor. Eu não gostei de nada que provei daí.
- Pelo menos isso quer dizer que você experimentou todos os sabores, acreditando puramente que algum deles seria bom. Agora, você pode fazer o favor de vir até aqui?
- Não está me chamando até aí para ir buscá-la, certo?
- Eu não sou uma desgraçada folgada, Seamus. Venha e você vai ver a razão.
- Tudo bem, logo eu chego.
Enquanto eu esperava ele chegar, sentei-me no chão, encostando-me a parede oposta da qual ela estava próxima. Comecei a comer o que eu havia comprado, abrindo também a pequena garrafa de água que havia adquirido. Fui obrigada a discordar de Seamus, porque o sanduíche era muito bom, ou seja, o contrário do que ele me disse. Acabei terminando de comer antes que ele chegasse, mas deixe-me dizer que eu costumo comer rápido. Quando ele apareceu ali, ficou me olhando com aquele expressão meio perplexa, achando que eu o havia chamado para que me acompanhasse, porque ele ainda não havia visto a garota.
- Ei, não é pra mim que você tem que olhar e sim pra ela.
Indiquei a desconhecida com o queixo e Seamus automaticamente redirecionou seu olhar. Suas expressões, para minha surpresa, ficaram verdadeiramente perplexas.
- Droga. Eu sabia que ela não devia ser sinônimo de boa coisa, já que estava jogada aí. O sangue dela já está seco na camiseta, então fazem algumas horas que ela está por aqui.
Ele ficou calado por mais alguns segundos até finalmente virar-se para mim, engolindo seco.
- Acho que colocarei um substituto para cumprir suas funções.
- Como é que é? Seamus, não fiquei incapaz subitamente só porque encontrei uma garota estranha e ferida numa travessa.
- Vai ser sua incumbência cuidar dela.
Agora foi a minha vez de ficar sem palavras. Realmente, eu não conseguia fazer minhas cordas vocais trabalharem a meu favor para poder pronunciar um palavrão em protesto contra dessa revelação idiota que Seamus acabara de me fazer. Ele tinha que estar brincando. Quando consegui falar, não foi o xingamento tão desejado que saiu:
- Sou paga para matar, até onde me recordo. Vai assinar um novo contrato comigo onde poderá especificar meus serviços, constando lá como babá?
- Não me interessa se vou ter que assinar ou montar uma droga de contrato. As pessoas que você executa acabam com esse final trágico por alguma razão. O que eu posso te dizer no momento é que vai ser melhor ter essa estranha como aliada, do que como inimiga ou alguém para matar.
- Você a conhece?
- É óbvio que não, Phyllis. – Ao ouvi-lo falar, procurei por traços de insegurança ou qualquer indicação de que ele estivesse mentindo, mas ele nem ao menos gaguejou ou outra coisa.
- Então qual a razão das afirmações que acabou de fazer?
- Que pessoas comuns ou inofensivas carregam aquela quantidade de lâminas na lateral da calça? Ou penduram adagas na coxa?
Merda, ele estava certo. Eu não havia notado que eram lâminas, tinha visto apenas as pontas metálicas na calça, mas agora que eu olhava atentamente, podia perceber o contorno leve das lâminas por baixo do tecido da calça dela.
- Ah, excelente, não? Se ela sinaliza perigo iminente, por que diabos eu tenho que cuidar dela?
- Alguém tem que fazer isso e eu não posso, em hipótese alguma, chegar com uma mulher dessas nos braços em casa.
Como não misturávamos assuntos pessoais com profissionais, contive a vontade de perguntar a ele o por que de ele não poder chegar com essa esquisita em casa, embora eu tivesse minhas suspeitas. No entanto, era difícil pensar em Seamus em um relacionamento onde as proporções foram tão expansivas a ponto de ele levar a mulher para morar com ele.
- Tudo bem. Mas não tem mais ninguém que pode fazer isso no meu lugar? Eu prefiro realizar aquela lista inteira que me mostrou hoje mesmo do que ficar de vigia.
- Não posso dar essa incumbência para qualquer novato no ramo. Phyllis, você vem de uma família de assassinos que há muitos anos realiza serviços para empresa que eu ajudo a manter. Não importa que a empresa seja fachada, nós todos lidamos com gente de alto escalão, compreende? Você tem experiência e aprendeu com os melhores que eu e meus ascendentes já conhecemos. Alguém novo seria morto por ela no primeiro piscar de olhos.
Nesse momento eu já tinha me colocado de pé e já o havia puxado para perto, para que não fizéssemos escândalo. Algumas pessoas que passavam por ali direcionavam olhares arregalados ao ouvir Seamus falar e eu disfarçava, sorrindo para as mesmas e interpretando expressões que tentavam transmitir a imagem de que ele estava divagando ou ficando louco.
- Eu sei disso, está bem? – Falei, com as expressões mais severas. – Você falou pra mim há pouco sobre ser previsível e eu digo a você agora que não sei como consegue êxito sendo tão indiscreto. – Agora ele se dava conta do que havia falado em público, alto o suficiente para que muitos ouvissem – O serviço sujo tem que ser feito por alguém, mas já que sou assim tão experiente, eu ficar de babá dela seria desperdício do meu tempo.
- Encare como uma exploração. Você vai levá-la para casa, dar um jeito nesse ferimento de bala que ela sofreu e vai cuidar e vigiá-la.
Bufei. Eu sabia reconhecer quando não havia mais chances de convencer uma pessoa ou mudar uma situação. Seamus sabia muito bem ser inflexível e ele sem dúvidas o estava sendo agora. Tudo o que pude fazer foi resmungar e fazer uma exigência:
- Só há uma coisa que eu não farei, que é levá-la no colo até o meu carro. Vamos lá, abaixe-se e pegue-a.
O olhar de incredulidade que recebi foi fantástico. Fantástico pelo fato de Seamus saber que não havia outra alternativa para ele; era isso ou eu simplesmente daria as costas e a deixaria morrer ali mesmo. Afinal, ele também sabia reconhecer quando suas chances de manipulação de atitudes acabavam.
Sendo assim, ele não discutiu e apenas abaixou-se para poder segurar a mulher. Ao conseguir segurá-la direito, ele me olhou como quem diz “espero que não tenhamos que ir muito longe”. Procurando controlar o sorrisinho que brotou em meus lábios, dei as costas a ele, que me seguiu. E assim fomos até chegar ao meu carro que, para alegria dele, não estava mesmo longe da Change Alley. As pessoas iam passando tão rapidamente por nós que mal notavam que eu parecia comandar os passos de Seamus, enquanto ele carregava uma mulher desacordada e ferida nos braços. Umas poucas pessoas olhavam assustadas para nós ao notar a mancha que havia na blusa da garota, mas logo já havíamos chegado aonde precisávamos estar. Abri então a porta do passageiro e Seamus colocou a desconhecida no banco. Virando-me para ele, comentei:
- Você é terrivelmente prestativo, já disse isso?
- Deixe de ironias comigo, Llis. Vou voltar ao serviço. Qualquer coisa me ligue.
- Assim farei quando chegar em casa e vou pedir para que vá até lá e cuide dela para mim, porque estarei muito ocupada querendo dormir.
Ele ignorou o que eu havia dito e começou a caminhar para longe de mim. Quando sentei no banco do motorista, inevitavelmente tive que olhar para o lado. Eu não tinha ideia de que horas ela ia finalmente acordar do desmaio de provavelmente havia tido. Olhando bem, ela estava com manchas roxas nas mãos, ralados e a cabeça estava inchada em uma parte logo atrás. Caramba, ela tinha levado o tiro enquanto estava em cima do telhado? Só podia ser. Ela caiu de uma altura considerável para estar com essas marcas. Bom, agora eu tinha mesmo era que ir para casa. Sem dúvidas, assim que eu chegasse lá, essa garota ia ter que ser revistada.
Agora eu estava sendo obrigada a levantar. Que ótimo. Mas se é para fazer isso, que seja em grande estilo. Por isso, assim que enfiei meus pés nos chinelos mais próximos, fui direto ao som, que começou a tocar Devil’s Dance do Metallica, logo que o liguei. Aumentei consideravelmente o volume, para que eu ouvisse a música através do meu box de vidro blindado enquanto tomava banho. Foi uma excelente escolha o vidro blindado e digo isso com plena certeza porque certa vez foi o que me salvou. Deixe-me dizer que não é agradável quando pessoas invadem a sua casa. Muito menos quando estão atrás de você por uma razão nada boa e possuem uma arma em mãos, sem contar o fato de não serem ao menos educados, quebrando a porta do seu banheiro, mesmo ouvindo que o chuveiro estava ligado. No entanto, pequenos infortúnios são inevitáveis.
Liguei o chuveiro e não muito tempo depois eu estava no banho. A lista de músicas que estava tocando no meu rádio era boa – visto que eu a havia organizado –, o que ajudou a melhorar meu mau humor matinal. Ao sair do boxe, peguei a minha combinação usual de roupas: calça jeans escura, blusa básica branca e coloquei uma jaqueta de couro preta – da qual eu gosto muito porque serve perfeitamente – por cima. A dúvida quanto ao que fazer com o meu cabelo surgiu quando parei em frente ao espelho. Droga. Eu realmente gostava do meu cabelo ruivo natural que, para o meu gosto, não tinha tanta tonalidade alaranjada, mas era mais escuro. Eu o tinha cortado em camadas, mas na verdade andei desejando cortá-lo bem curto; eu já não tinha a mesma paciência de antes para cabelos cujo comprimento quase batia em minha cintura. Lembrando-me que eu não tinha muito tempo para pensar, peguei a primeira escova que se encontrava na bancada do banheiro, penteei os cabelos e os prendi em um coque. Ótimo, hora de ir.
Meu carro é um Mini Cooper Coupé, versão John Cooper Works. Pequeno (o que é muito conveniente) e rápido (mecanismo que se torna muito útil, às vezes). Eu podia deixá-lo estacionado quase em frente à minha casa, que fica na Bull’s Head Passage. A propósito, eu vivo em Londres e é preciso dizer como é excelente a proximidade que consegui estabelecer entre minha casa e o meu trabalho. Em geral, eu levo cerca de cinco minutos – literalmente – para ir de casa ao número um da Rua Cornhill, EC3, que é onde se encontra o escritório em que eu trabalho. Como de praxe, eu já estava descendo do carro e indo em direção ao edifício aonde eu encontraria Seamus. Ao entrar, o homem que ficava na recepção, cujo nome era Edmond e que há algum tempo eu conhecia, me cumprimentou:
- Olá Sra. O’Riordan. Como estão as coisas?
- Olá, Edmond. Não tão bem quanto poderiam estar, mas com você espero que esteja tudo nos conformes.
- E está, senhora. O Sr. Bladshard a aguarda.
Não falei mais nada depois disso; apenas assenti com a cabeça e fui encontrar Seamus e conferir qual seria a minha provável programação diária. Ao ver aquela altura, postura, vestimentas e o cabelo levemente grisalho, fui até ele, tentando fazer o mínimo de ruído quanto possível. Mesmo sendo cautelosa, o desgraçado que, por acaso, estava de costas para mim, falou:
- Não sei como você se dá bem no trabalho que desempenha, Phyllis. – Não dei nenhum passo à frente. Muito pelo contrário: travei-os e automaticamente cruzei os braços – Você é muito previsível.
- Questionando o meu êxito sucessório, é isso mesmo?
Enquanto se virava para mim, afirmou: - De forma alguma. Encare isso como um conselho.
Seamus não era mais jovem como eu, que tenho meus 20 e poucos anos. Ele beirava os quarenta anos de idade, com certos cabelos brancos despontando no meio do que antes era um conjunto totalmente uniforme de cabelos negros; usava óculos de grau, de armação preta e retangular. Sua altura sustentava uma postura austera e talvez tenha sido por essa e outras razões que meu único irmão, já falecido, tenha confiado tanto nele, coisa que eu atualmente apoio e continuo nutrindo.
- E então, minha agenda está muito cheia?
Ele me olhou com um ar de deboche através das lentes dos óculos.
- Com toda certeza.
- Eu não poderia imaginar algo diferente disso.
- Bom, há um cara de meia idade que mora em num dos apartamentos localizado na Brick Lane, número 133.
- Eu vou ter que pagar pedágios pra executar uma pessoa? Você com certeza está brincando comigo.
- Você já atravessou a Inglaterra e viajou para outros países, Phyllis. Uma mordomia excelente que teve nessas viagens, aliás. Agora fique calada e me ouça, está bem?
- Seamus?
- Sim.
- Você está terrivelmente ranzinza e mandão hoje. Isso não me agrada.
- A mim tampouco.
- Há outro que mora na Almington Street, esquina com a Thorpedale Road. Acho que esses dois são os mais urgentes.
Nesse instante, ele me entregou a folha que estava analisando quando cheguei. Peguei-a na mão e comecei a ver o restante do itinerário. Ah, inferno. Eu bem merecia isso; só podia ser um carma que caiu em mim, última herdeira da família ainda viva, mas que todos os meus ascendentes colaboraram para acumular.
- Não comente nada. Você vai ter um prazo para fazer isso, é claro. Não terá apenas o dia de hoje para a realização de todas essas tarefas.
- Como você é gentil. – Ele me olhou desconfiado, sem saber se pisava mesmo nesse terreno instável que eu oferecia ao dizer algo bom como isso – De verdade, mesmo. É bom saber que seus superiores têm consciência de que matar pessoas às vezes toma tempo.
- É claro que eles sabem disso.
- Tome – falei, estendendo a folha novamente para ele. – Eu já volto aqui buscar essa folha e conversar com você sobre alguns detalhes que eu preciso saber.
- E aonde você vai?
- Como prometi chegar aqui em 20 minutos, acabei não comendo nada antes de sair. Meu estômago está requerendo alimento, ok?
Ele assentiu positivamente, sorrindo, enquanto eu me virava e descia novamente para poder ir ao Il Mulino, que ficava numa ruazinha aqui por perto. Nem me dei ao trabalho de pegar o carro para isso e fui a pé, o que não tomaria muitos minutos de mim. Ali era o centro da cidade, o que me impedia de lidar com trânsito calmo e poucas pessoas. Havia sempre muito movimento, gente pra lá e pra cá e eu apenas querendo comprar o meu café da manhã, completar boa parte do que eu tinha para fazer hoje e depois ir calmamente para casa. Estou tentando terrivelmente fazer isso. Que as forças do destino me ajudem.
“Only imagine what it’d be like…”
Argh. Porcaria de rádio-relógio. Não bastando ser acordada com a música que está tocando na BBC Radio 1, minha mão não consegue encontrar o maldito aparelho que, no momento, me impede de voltar a dormir e, assim, depois de esmurrar infrutiferamente a mesa de cabeceira, me vejo obrigada a levantar. Fico de bruços, me apoiando nos cotovelos e finalmente enxergando o aparelho infeliz que finalmente se cala quando eu o tiro da tomada. Merda.
Acordar cedo nesse início de primavera é realmente agradável perto da sensação sufocante que sinto no verão. Porém ser mais agradável não implica em maior facilidade pra colocar os pés fora da cama – para infelicidade minha. Me jogo no colchão de novo, puxando as cobertas e enrolando-me nelas, o que não impediu que meu celular tocasse. Inferno! A semana estava tendo um péssimo começo, de acordo com a minha análise.
Chutando as cobertas, dei um jeito de me colocar de pé e alcançar o celular, que estava na estante – o que significa que há uma certa distância interposta tal e a cama. Ah, Seamus. Esse homem não valia nada mesmo, mesmo sendo quase meu chefe.
- Fala, Seamus.
A resposta que obtive não foi dita em um tom temeroso (o que era uma resposta esperada) apenas normal:
- Diga-me que não te acordei.
- Vamos dizer que você trabalhou como cúmplice do meu rádio-relógio.
- O que não me coloca em posição favorável, tampouco. – Ele se calou durante o instante em que eu praticamente fazia questão de bufar para não abrir a boca e falar algo que viesse a ser mal educado. Ressalto que esse cuidado é privilégio para Seamus e outras poucas pessoas mais – De todo jeito, isso pouco importa. Tenho alguns serviços pra você.
- Já disse o quanto detesto quando você faz uso desses plurais?
Na realidade, os plurais de Seamus sempre me deixaram nervosa. Não é com freqüência que eu tenho dias fáceis e esses plurais nunca colaboram para alterar a situação.
- Vamos parando com isso. Sei muito bem que você é capaz de lidar com os meus plurais.
- Isso eu sempre fiz.
- Acho que há muita modéstia em você, mesmo considerando seus motivos para tal e a sua boa altura – disse ele, sendo sincero.
- E eu acho que vou desligar agora mesmo, porque você está sendo perturbador demais para um cara alto e de sorriso bonito – respondi, não tão sincera assim.
- Você acha mesmo isso?
Seamus não era feio. Pelo contrário, ele trazia na sua postura uma boa quantidade de charme. Não que ele um dia fosse ficar sabendo disso.
- Ah, pelo amor de Deus, Seamus. É inacreditável o fato de que você leva a sério quase tudo que eu digo, mesmo depois de tanto tempo me conhecendo. Eu sei mentir bem, esqueceu?
- Eu jamais me esqueceria disso.
Ele não se esquecia disso, de verdade, e era por essa razão que eu trabalhava com ele. Brincadeiras à parte, havia profissionalismo. Nada, jamais, era levado para o pessoal.
- Bom saber. Em 20 minutos eu estarei aí.
E. Faucz
As pessoas sempre estão dispostas a machucar.
As sombras dançavam naquela noite úmida e silenciosa, esgueirando-se pelas paredes e pedras, fazendo com que as ruas fossem tomadas por uma densa escuridão. Mas nada daquilo se devia aos jogos de luz causados pelos carros que passavam incessantes, ou ainda à interrupção casual dos raros pedestres.
Não… Aquela era a dança macabra do povo das sombras. Estavam agitados, fugindo. Fugindo do poder da mulher de cabelos tão negros quanto o céu noturno, que observava a movimentação do ponto mais alto da cidade.
As sentinelas do mundo superior sabiam que ela viria e fizeram soar o alarme. Os desgarrados sabiamente buscavam esconderijos, temendo a morte.
Ah, a morte. “Tod”, como o povo das sombras gostava de se referir a ela. Há muito esse se tornara o primeiro nome de Arin, tanto que nem mesmo os conselheiros se referiam a ela pelo original. Porém não fora a companheira de longa data que a trouxera à superfície hoje. Não viera para matar traidores e desgraçados.
Gostaria muito que sua tarefa fosse tão leviana.
Mas não era. O rei lhe designara para isso como se a missão fosse algo simples: trazer a herdeira para o submundo. Tod trataria de se vingar tão logo voltasse. Da maneira mais cruel que conseguisse conceber. Já estava acostumada com o fato dele ser um mentiroso descarado, mas, até aquele momento, ele jamais cometera o erro de lhe mandar para uma missão despreparada.
Seus instintos despertaram subitamente, fazendo com que voltasse sua atenção para o ambiente que lhe cercava. Fez uma careta, irritando-se.
Sempre há pessoas tolas o suficiente para não se preocupar com quem devem caçar para ganhar uma grande recompensa. Qualquer criatura minimamente inteligente sabia que reputações seculares tem um bom motivo para existir. Mas grandes quantidades de dinheiro faziam qualquer inteligência evaporar, especialmente no mundo superior.
O rei fora categórico, porém, ao afirmar que ela devia ser invisível. Matar mundanos era sempre um problema. Ainda mais considerando que ela não se importava nenhum pouco com a existência deles.
Voltou para as sombras, fazendo seu corpo material desfragmentar-se. As balas passaram por ela, acertando o que estava atrás.
Sorriu. As sombras se contorceram e avançaram, tomando uma forma quase física. Atravessou os corpos dos mundanos que a atacavam, deixando-os inconscientes pela sobrecarga, e voltou a sua forma, seguindo pelos telhados a passos largos e saltos longos. Estava perto. Quase podia sentir o cheiro da herdeira, mas alguma coisa estava nublando sua percepção.
– Problemas com a exatidão do alvo?
A voz atingiu-lhe como um trem de carga. Ela sentiu uma dor física insana, que quase lhe partiu em duas. Não conseguiu desmaterializar-se ao ouvir o tiro, mas o projétil que atravessou seu corpo não passou de uma lufada de vento se comparado com o furacão causado pela voz do estranho.
Escutou algo quando caiu do telhado, mas não conseguiu definir o que ouvira. Morfeu clamou sua consciência, e o mundo todo enegreceu.
B.Claudino